- Património
- Património Etnográfico
Património Etnográfico
O Encontro de Tradições
Situado numa zona de fronteira entre o Minho e Trás-os-Montes, o concelho de Ribeira de Pena recebeu nas tradições do seu povo influências de ambas as regiões, quer pelas características geográficas, de contraste entre as zonas de vale e de montanha, quer pelo contacto directo que as suas populações sempre mantiveram com a região de Basto e do Baixo Minho e com os povos do Alvão, na região levante, e do Barroso, na região mais meridional. Esta localização privilegiada tem como resultado a confluência de vários costumes e saberes que contribuem para a riqueza da sua cultura popular onde o artesanato e a gastronomia assumem especial importância.
A predominância da produção agrícola levou a que se enraizasse no seio da população local toda uma série de tradições associadas a esta atividade, tradições que ainda hoje se praticam constituindo momentos de reunião e de grande animação.
Apesar de toda a variedade de produtos que são cultivados, a economia baseia-se em três produções dominantes que são também a base dos momentos mais festivos na vida popular: o cultivo do vinho verde, que atinge o seu ponto alto na vindima, o cultivo do milho, cuja desfolhada representa o seu expoente máximo, e o cultivo do linho, onde a arrancada se reveste de grande importância.
Numa economia de subsistência, onde se vive do que a terra dá, a criação de gado tem também grande importância, assumindo o porco um papel decisivo na dieta diária. Não admira por isso que também a matança do porco constitua um momento festivo e de grande significado.
Ainda ligado à riqueza agrícola está a produção artesanal que fornece os equipamentos necessários ao trabalho agrícola e associados à lide doméstica. Ferreiros, canteiros, carpinteiros e tanoeiros faziam parte das áreas artesanais que até há pouco tempo ainda laboravam no concelho. Preservam-se ainda as actividades ligadas à cantaria e à cestaria, merecendo a produção de crossas um particular destaque.
É, no entanto, na tecelagem que o artesanato conhece maior expressão, pelo trabalho da lã nas zonas mais recônditas do Alvão e, principalmente, pelo trabalho do linho. Produzido um pouco por todo o lado, foi nos centros de produção de Cerva e Limões que atingiu elevados níveis de especialização na qualidade do trabalho final, motivando a realização anual da Feira do Linho enquanto reconhecimento da sua excelência.
A animação festiva encontra também aqui uma simbiose entre o folclore minhoto, mais garrido e alegre, e o folclore transmontano. Várias foram as associações que se dedicaram à sua manutenção, destacando-se pela sua atividade a Associação Desportiva, Cultural e Recreativa de Balteiro e a Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Agunchos. Os Cantares de Reis são também momentos que se revestem de grande importância entre a população local, numa altura em que vários grupos se juntam para percorrer as povoações entoando cantares tradicionais em busca de uma recompensa. Momento marcante desta tradição é a Feira de Cerva, a 6 de Janeiro, onde compareceram vários grupos de cantares em grande animação. Outro momento festivo de referência é o Carnaval e o hábito de os habitantes locais se mascararem de forma espontânea, individualmente ou em grupo. Esta tradição mantém-se viva no lugar da Venda Nova, onde anualmente se realiza um cortejo de iniciativa comunitária.
Por fim, de influência transmontana, a tradição de roubar carros, grades, arados e vasos por alturas do São João, que são depois depositados no centro das aldeias, para transtorno de proprietários e deleite dos larápios.
Envoltas de grande tradição estão as romarias que se realizam um pouco por todo o concelho ao longo do ano, geralmente em honra do santo local, em momentos de reunião e encontro. Para além das festividades religiosas, sempre acompanhadas de magníficas procissões com elaborados andores, há também toda uma festividade civil onde não faltam o folclore e as tendas de produtos regionais, culminando com riquíssimos fogos de artifício.
O destaque, pela sua antiguidade e dimensão e pela riqueza dos seus andores, vai para a Romaria de Nossa Senhora da Guia, padroeira do concelho, que se realiza a 15 de Agosto atraindo milhares de romeiros ao alto da Fonte do Mouro. Pela sua dimensão, merecem ainda referência às festas do Salvador, Balteiro, Santo Aleixo e Cerva. As feiras são também um momento de grande importância económica pois servem, ainda hoje, para as populações locais se aviarem dos mais variados produtos. O destaque vai para a tradicional feira anual de Balteiro, a 22 de Dezembro, que há várias gerações serve o avio para o Natal das povoações do concelho e arredores.
Também a gastronomia é uma simbiose dos sabores do Minho e Trás-os-Montes, guardando o que de melhor ambas as regiões têm para aconchego do paladar. Os enchidos são aqui um importante elemento que não falta nas merendas e nas mesas, destacando-se as morcelas e as alheiras. Mas é nas refeições que a gastronomia se destaca. A riqueza piscatória do Tâmega e afluentes reflecte-se nos pratos de peixe com grande realce para as trutas do Beça. A riqueza da criação de gado e da caça evidenciam-se na vitela maronesa, no cabrito das altas terras do Minho, no porco bísaro e no javali, que dão origem a maravilhosos pratos de carne. A riqueza da agricultura merece destaque na produção do milho graúdo que baseia a magnífica broa de milho e os Milhos, prato característico da região. A riqueza da produção frutífera e da produção de mel refletem-se na doçaria, de grande influência minhota, assim como é o tradicional Vinho Verde de Basto que, branco ou tinto, acompanha todo o cardápio de forma perfeita.
A tradição oral dos ribeirapenenses é também um testemunho de várias influências baseando-se em acontecimentos reais, que se mantêm vivos na memória através das lendas e romances, e na sabedoria popular, que guia o dia-a-dia através dos adágios, provérbios e ditados. Por ser a mais popular, destaca-se entre todos a lenda da Pedra Cavalar.
